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Houve um tempo em que uma campanha eleitoral podia começar quase do zero…

Equipe Hipertexto setembro de 2026

Escolhia-se um personagem, ajustava-se o figurino, treinava-se o discurso e entravam em cena algumas imagens que conhecemos bem: mangas arregaçadas, café no balcão, pastel na feira, abraço apertado, visita ao mercado.

Durante décadas, estrategistas políticos aperfeiçoaram fórmulas capazes de apresentar um candidato ao eleitor em poucas semanas. Porém, parte desse mundo começa a ficar para trás.

O digital mudou a relação entre memória e reputação. A imagem, hoje, dura mais do que o candidato imagina.

Hoje, antes mesmo de decidir se acredita no personagem apresentado durante a campanha, qualquer pessoa pode procurar quem foi aquele candidato há uma década, às vezes duas.

E quase sempre haverá alguma coisa esperando por ela: uma entrevista antiga, um vídeo esquecido, uma postagem, uma promessa, uma declaração que contradiz o discurso atual ou ainda uma fotografia que, retirada de seu contexto, exigirá explicações.

Costumamos dizer que o eleitor tem memória curta; já a internet, definitivamente, não tem. E há um ingrediente novo nessa equação: a inteligência artificial tornou essa memória ainda mais acessível.

Informações que antes exigiam horas de pesquisa podem ser cruzadas e apresentadas em minutos. As contradições ficaram mais fáceis de encontrar. Os personagens, mais difíceis de sustentar.

Por isso, quando conversamos sobre reputação, gostamos de lembrar que ela começa muito antes de alguém pensar em pedir voto.

Se você imagina entrar para a vida pública daqui a cinco anos, por exemplo, o que faz hoje já fará parte daquela eleição.

A forma como trabalha, trata pessoas, responde a uma crise, escolhe suas causas, cumpre compromissos e deixa registros constrói um histórico. Dinheiro compra silêncio, advogado bem pago derruba post, agência de reputação lima resultado de busca. Mas o que já foi publicado como fato verdadeiro não some por decreto: em fevereiro de 2021 o STF decidiu que não existe, no Brasil, um direito geral ao esquecimento.

Apaga-se o link. Não se apaga o fato de ele ter existido.

A comunicação política do futuro talvez dependa cada vez menos da capacidade de inventar um bom personagem e cada vez mais da de apresentar uma trajetória coerente.

A campanha dura meses. A reputação, não. A pergunta que ninguém está fazendo é outra: nesse histórico todo que a IA agora organiza em minutos, quem vai decidir o que foi erro de percurso e o que foi só imperfeição de gente viva? Por enquanto, o algoritmo não faz essa distinção.

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