por Nany Mata, chefe de redação da Hipertexto

Noutro dia, fizemos uma seleção de emprego (para estágio) lá na empresa e, olha, preciso desabafar. É que senti certa dificuldade em entender a postura de alguns candidatos e, mais do que isso, me assustei um pouco porque os que me deixaram com essa sensação foram a maioria.

Foi, então, que decidi escrever este texto, um TOP 5 dos comportamentos que ainda estou tentando entender. Vou contar o que rolou na tal seleção de emprego. Me acompanha?

1) O prazer é todo seu, avaliador.

A primeira etapa era análise de currículo. Quem não se enquadrava nos requisitos da vaga, já seria eliminado de cara. Simples assim. Contudo, dois currículos chamaram atenção, mesmo estando fora dos requisitos. Em ambos os casos, os candidatos estavam no 8 º período, quando buscávamos pessoas entre o 5º e o 7º. Nada grave, chamamos para prova e entrevista assim mesmo e chegamos, inclusive, a ponderar a possibilidade de contratação futura, em caso de merecimento, claro.

Você viram que estou no último período? Eu vou ser contratada depois? Porque assim, terei só 4 meses de estágio e depois preciso de um emprego, né?!”, respondeu um deles, por email mesmo, quando convidado a comparecer à empresa para a próxima etapa. Tiro na pé, eliminação por motivos de arrogância.

2) Pontualidade para quê?

O trânsito é (quase) sempre muito ruim em Belo Horizonte, em especial, às sextas. Qualquer pessoa que more na cidade há mais de uma semana consegue perceber isso. Como consequência, é normal que a gente fique preso e demore um pouco além por causa de qualquer chuvinha ou moto que esbarre em um carro numa avenida principal, bloqueando tudo. A gente tolera 5 ou 10 minutos de atraso, afinal, é a geração que chega para fazer Enem quando os portões já foram fechados e não aguenta esperar meia hora numa sala de espera para garantir a pontualidade.

Tínhamos agendado cada candidato com a diferença de 60 minutos para a segunda etapa do processo seletivo, um teste de conhecimentos gerais. Um candidato se atrasou exatos 35 minutos e, ao chegar, sequer se justificou.

3) Estudar sobre a empresa, para quê?

Fiquei na dúvida se o pior na hora de avaliar o teste era perceber que um candidato sequer entrou no site da empresa para saber citar alguns clientes ou se faz sentido que estudantes de jornalismo desconheçam nomes de ministros frequentemente citados na mídia. Na real mesmo, a impressão é de que só se lê o que é de interesse e, na vida real, nenhum de nós, jornalistas, pode se dar a esse luxo.

4) Dress code tornou-se old fashioned.

Queridinhos, existe uma diferença muito grande entre ser fashion e desleixado. Não há problema algum em estar na moda, usar barba, tatuagem, piercing, coque… Amo! Já bem disse Cris Guerra, que a moda pode ir ao trabalho. o problema é ir para uma entrevista de emprego como se você estivesse indo ao clube. O momento é de causar boa impressão e, para tal, tomar um banho, escolher uma roupa mais arrumadinha, faz parte.

 

 

 

5) O conceito de educação foi atualizado.

Ou deixou de existir de vez. Candidato entra no escritório para seleção de emprego, nem olha pros lados, mal cumprimenta, senta como se estivesse numa mesa de bar e faz cara de “anda logo porque tenho mais o que fazer”. A entrevista segue, as respostas são evasivas, às vezes, até grosseiras. Sabe quando a pessoa parece estar totalmente desinteressada e sem saco? O sentimento transmitido era de que se estava lá fazendo um favor a nós. Nenhum sinal de interesse e de que aquele seria o primeiro minuto de uma parceria.

Pois, então, confesso que, às vezes, me sinto uma idosa por minha falta de capacidade de simplesmente aceitar tudo isso. E o pior de tudo é que mal passei dos 30 anos! Atente-se ao fato de que faço parte da tão criticada geração Y, aquela acostumada a ter tudo o que quer e que se recusa a tarefas subalternas, além de buscar salários ambiciosos desde cedo.

Mas aí é que vem um aspecto importante a ser considerado aqui: todos os candidatos entrevistados fazem parte da geração Z, ou seja, nasceram a partir do final de 1992. Essa turma já cresceu com computador, internet e todas as tecnologias digitais que mesmo eu, apenas uma geração anterior, só fui conhecendo ao longo da carreira.

Cheguei a usar gravador de fita em entrevistas, revelar fotos no laboratório de fotografia da faculdade e gravar reportagens de vídeo em VHS – isso porque me formei em julho de 2009, menos de 10 anos atrás. Cheguei até a frequentar a biblioteca da PUC, veja você.

Sinto que mais do que uma transformação tecnológica, houve uma alteração brusca (?) de postura. A ordem é outra: já não faz diferença conseguir um estágio, afinal, o aprendizado está logo ali no Google e, depois da faculdade, é só empreender e abrir uma empresa própria. Afinal, se tudo der errado, é só fazer um mochilão pela Europa ou pela América Latina e está tudo bem. Será mesmo?

COMO PODEMOS TE AJUDAR? ESTAMOS À SUA DISPOSIÇÃO.